Fortaleza, 300 Anos: O Espelho de Quem Somos

Por Gustavo Augusto-Vieira

Nem que eu fosse o mais inspirado dos poetas, conseguiria traduzir em métrica o que sinto por Fortaleza. A verdade é que amar esta cidade é um exercício de autoconhecimento; é entender que não apenas habito este solo, mas que ele me habita. Somos uma simbiose feita de maresia e asfalto.
Celebrar os 300 anos de Fortaleza é olhar para uma trajetória de luzes e sombras. Amo esta capital com a honestidade de quem conhece seus defeitos, seus detalhes mais íntimos e suas contradições mais profundas. Tenho o orgulho fincado na geografia: nasci no ponto exato onde o mar e o sertão se encontram para conversar.


Viver aqui é caminhar sobre a memória silenciosa de povos originários. Somos um território que pulsa sobre as raízes de ancestrais cujas lembranças, muitas vezes, resistem apenas na sonoridade indígena dos nomes que batizam nossos bairros e lugares. É uma herança que carregamos no RG e na alma, mesmo quando o cotidiano tenta nos fazer esquecer.


Minha identidade é puramente urbana, solar. Diferente de muitos conterrâneos, não possuo ligações profundas com o interior do estado, mas essa ausência de raízes rurais não me torna menos “alencarino”. Pelo contrário, meu pertencimento se manifesta no calor que nos define — adoro o sol que nos consagra e, confesso, ainda estranho a chuva que nos visita. Sou movido pela luz da “Terra da Luz”.


Minha gratidão por Fortaleza se manifesta no prazer de descobrir novos lugares e conhecer gente nova em meio a esse mar de pessoas. Somos um povo específico, dono de uma cultura que transborda na gastronomia, nas festas e na arte vibrante de nossos criadores. Existe, inclusive, uma beleza quase poética em “odiar” certas coisas na cidade, apenas para reafirmar o quanto ela nos importa.

Neste tricentenário, sinto-me apenas mais um nessa multidão de milhões. No entanto, é nesse anonimato coletivo que encontro minha maior honra: a de fazer parte da história viva de Fortaleza. Parabéns à nossa cidade, que continua sendo o porto seguro do meu coração e a moldura da minha própria história.

*Gustavo é editor do blog BILOTO

Foto de Dhara Sena no Pexels

LEIA +

+RECENTES