Por Erick Sousa*
Fortaleza é a casa de um conjunto de agentes de propulsão no cinema brasileiro, com projeção internacional, tem importantes escolas e projetos formativos de longa duração de cinema públicos, gratuitos, com relevante democracia nas seleções dos seus estudantes. Além de sediar outro complexo de agentes, coletivos e projetos independentes de formação e produção em cinema e audiovisual. É um universo mais extenso que o cidadão médio de Fortaleza imagina e abarca – mesmo com nítidas contradições territoriais – uma grande parcela do tecido urbano da cidade. Em meio à centralidade do cinema no debate nacional feito nas redes e nas esquinas (ainda frequentamos esquinas?) da cidade podemos dizer que o cinema brasileiro vive um dos melhores momentos da ultima década e este texto busca falar um pouco sobre como os cineclubes podem contribuir com a circulação-acesso do cinema local, nacional.
Em Fortaleza, no mês em que a cidade fez 300 anos vivemos esse imaginário realizado em projetos que se desenvolvem junto (e como efeito) desta orquestras de ações do poder público, dos grupos e artistas independentes e da criatividade da categoria de agentes e instituições que tecem experiências de produção de cinema em Fortaleza.
Os números brasileiros, a maior parte deles, confluem no mesmo sentido de, digamos assim, “levantar a bola do cinema nacional”. No ultimo ano os projetos incentivados pela Lei Rouanet para audiovisual, como mostram os dados do próprio SALIC WEB (vide imagem abaixo), somam captado mais de 116 milhões de reais só para difusão de acervo e conteúdo audiovisual. Em Fortaleza vemos na ponta como esse números materializam-se em inserção de agentes (atores, atrizes, produtores, técnicos, operadores) e de uma cadeia de serviços (hoteleiro, gastronômico, turismo e transporte) que são afetados pela produção, circulação e consumo cinematográfica. Um viva ao cinema feito no Ceará!

Em contraste a esta efervescência justificada, considerando o mês de comemorações da cidade de Fortaleza e o anuncio de lançamento da Film Commission Fortaleza que abre as portas da cidade para um contato e articulação com produções cinematográficas para sediarem suas ações aqui, na costa dos verdes mares, me ressoa uma questão muito pragmática e que a resposta a leitora mais atenta já até detém: qual papel cabe aos cineclubes em meio a esta conversa industrial de licenças e royalties do cinema brasileiro?
Tentar levantar uma pauta cineclubista é um grande desafio, sendo o primeiro, e talvez o mais urgente, é o convencimento da própria categoria do impacto cineclubista no mercado industrial da circulação cinematográfica. E sobre isto gostaria de comentar duas ou três coisas, contando, claro com a paciência da leitora em revisar alguns dados que já são de conhecimento público sobre circulação e acesso popular ao cinema brasileiro.
Segundo dados da Filmes B cerca de 54,7% dos filmes brasileiros (111 títulos) fazem menos de 1 mil expectadores oficiais. Como vemos na imagem abaixo:

Quando temos em mente que somente 02 filmes brasileiro fizeram mais de 1 milhão de espectadores em 2025, de modo isolado parece um problema estético – talvez o brasileiro médio pode arrotar que isto é resultado dos filmes. Mas escrevemos aqui para dizer que não é totalmente! – uma revisão estética, ou avaliação estética sobre as obras que performaram 1 milhão de público é uma avaliação necessária e indicativa, mas não se reduz à isto, grande parte da responsabilidade pela não entrega é da estrutura anacrônica de circulação de cinema e audiovisual que assumimos enquanto sociedade – pra não dizer que é resultado de uma orquestra constituída pelos grandes players do mercado.
Neste imbróglio do desequilíbrio entre produção (tem filme sendo feito) e circulação (grande parte não tem expressivo desempenho comercial) que entra, se acentua, é urgente a atuação dos cine clubes nas cidades brasileiras – e em Fortaleza.
Mas como? (alguém pode perguntar por ai). Podemos intuir que parte da do baixo índice de adesão popular ao cinema tradicional para cinema brasileiro é por desigualdade social de renda colocado pelo preço médio do ingresso no Brasil que é de R$ 18,88(dados acessados na Filmes B), que representa 1,1% do salário minimo, então uma familia com 3 pessoas pagantes inteira precisa desembolsar só com o ingresso 3,6% do salário para uma sessão. É possível dizer que a escolha dessa familia anedótica e tão real é, no mínimo bem pensada, programada e entra no orçamento familiar como item; fazendo o acesso ao cinema um evento familiar – as familias se agenda para ir. O consumo do cinema não se institui como vontade do cotidiana, ela, neste contexto é inabitual. Outro ponto é o desequilíbrio na distribuição territorial do parque exibidor (os cinemas), como vemos através de dados da ANCINE no Brasil em 2024 continham 3481 salas em funcionamento, sendo a maior parte (cerca de 1900) concentradas no Sudeste brasileiro.
Assim, a familia com 3 pessoas insere na programação de ida ao cinema um deslocamento – com mais ou menos custeio à depender da região desta familia. Entre uma sessão e outra, o principal meio de acesso ao cinema local tem sido os cineclubes nas cidades brasileiras, cumprindo assim o preenchimento desta lacuna de consumo audiovisual nos territórios que atuam, através das programações de exibição e (muitas vezes) debates, rodas de conversas e ações formativas.
Neste tipo de exibição, falo com uma certa experiência prática em “levantar telas de cineclubes” de que a concorrência pelo espectador, neste contexto de exibição popular, comunitário, dentro de comunidades pauperizadas, também é dificil. Esta característica se faz tendo em vista os estímulos e uma possível facilidade de acesso das redes sociais que faz com que o brasileiro tenha consumido cinema cada vez mais por dispositivos móveis, de modo individual, deixando o encontro cinematográfico cada vez mais restrito, solitário, como vemos nos dados da pesquisa Nexos, feito pelo Ministério da Cultura em 2025, onde indica que 62% brasileiros consomem cultura por meio do celular.
Ainda sim, os cineclubes mantém uma programação viva de exibições no território cearense, como mostra os dados do mapeamento de cineclubes feito pela Secretaria de Cultura do Ceará foram identificados 29 cineclubes e 07 espaços de exibição na região metropolitana de Fortaleza – representando 40% do total de cineclubes e espaços mapeados. Entre os mapeados foram indicados que somente 19,1% utilizam obras locais para suas curadorias, 44,7% por stream/youtube ou 14,9% acervos próprios.
Nesta perspectiva que estou compartilhando com vocês, temos socialmente, ao menos um duplo movimento que se apresenta no futuro próximo – no que diz respeito aos cineclubes – para contorno da performance atual do cinema brasileiro nas salas de cinema. A primeira é o entendimento que uma parte do acesso à conteúdos do cinema brasileiro é feito pela rede de cineclubes que ja se instituem nos territórios. Segundo dados da Secult Ceará, ao menos 41% dos cines e espaços fazem exibição mensal com sessões de público médio de 50 pessoas. É necessário as produtoras, o poder público e os agentes interessados na popularização do cinema brasileiro à apropriação dessa malha popular de distribuição de cinema e audiovisual que já está instalada, em funcionamento, com baixo custo de operação e alto retorno social. O segundo ponto é uma posição de predileccionalização de nós, curadores de cineclubes, à exibição brasileira, de filmes locais, contribuindo com uma cultura de consumo local, de imagens das localidades, dos territórios, das cidades e das regiões…
Para ir encerrando e resumindo (continuamos conversando nos corredores) o papel dos cineclubes é na contribuição da construção de uma soberania visual-imagética brasileira que se da na disputa cotidiana pelas telas, tendo como principal efeito (e aposta) a instituição de interesses sociais, por meio das relações comunitárias, estabelecendo práticas de consumo de imagens locais, que dialoguem (em diferentes níveis de representação) com as realidades das cidades brasileiras – e isto o cinema independente e nacional tem elaborado (imagens criticas, reflexivas, representativas). Estas imagens precisam está possível de acesso pelo povo com mais frequência para promoção de uma maior adesão popular ao cinema de forma geral e nesta empreitada os cineclubes são os principais parceiros!
* Gestor Cultural, Cineclubista e Mestre em Antropologia(UFPE).
REFERÊNCIAS
Rodrigo Saturnino Braga. Vitórias incríveis, salas vazias: 54,7% dos filmes brasileiros lançados em 2025 não alcançaram 1.000 espectadores. In: https://www.filmeb.com.br/noticias/vitorias-incriveis-salas-vazias-547-dos-filmes-brasileiros-lancados-em-2025-nao-alcancaram
Raquel Aquino. Brasileiros consomem mais cultura pelo celular do que fora de casa. in: https://www.opovo.com.br/vidaearte/2025/12/05/brasileiros-consomem-mais-cultura-pelo-celular-do-que-fora-de-casa.html.
Mapeamento Cine Clubes e Espaços Exibidores Secult Ceará in: https://www.secult.ce.gov.br/2025/12/15/secult-ceara-divulga-mapeamento-de-cineclubes-e-espacos-de-exibicao-no-estado/


