Bazar HQ: a feira que transforma a Praça Luiza Távora em território da cultura geek

Todo segundo domingo do mês, a rotina da Praça Luiza Távora, em Fortaleza, ganha novos personagens. Antes mesmo do meio-dia, colecionadores descarregam caixas de papelão, mesas dobráveis e toalhas coloridas. Mangás dividem espaço com videogames antigos. Action figures observam quem passa. Cartas de Pokémon, HQs, miniaturas, camisetas de animes, séries e filmes começam a ocupar os corredores improvisados entre as árvores.

Às 13 horas, oficialmente, começa mais uma edição do Bazaar HQ. Mas, para quem participa da feira, o evento começa muito antes.

“A gente orienta que os expositores cheguem por volta do meio-dia para montar suas coisas. Só que tem gente que chega às dez da manhã só para conseguir um bom lugar”,

Mailson Brasileiro, feirante e um dos cinco organizadores do Bazar HQ.

A feira segue até aproximadamente 18h30 e, apesar da estrutura enxuta, reúne centenas de visitantes de diferentes idades, atraídos pela possibilidade de encontrar itens raros, conversar com colecionadores e circular livremente por um dos encontros mais tradicionais da cultura geek em Fortaleza.

Uma feira que nasceu de outra feira

A história do Bazar HQ começa antes mesmo de receber esse nome. Segundo Mailson, tudo remonta à antiga Feira Livre do Quadrinho (FLQ), idealizada pelo colega Elisandro, ao lado de outro parceiro. A primeira edição aconteceu no bairro Benfica e, posteriormente, encontrou na Praça Luiza Távora seu endereço definitivo.

Com o crescimento da FLQ, novas pessoas passaram a integrar sua organização. Aos poucos, surgiram divergências sobre o futuro do evento. Parte do grupo defendia levar a feira para shoppings e espaços privados. Elisandro era contrário.

Para ele, a essência da feira estava justamente na praça: um espaço público, aberto e acessível, onde qualquer pessoa pudesse participar sem pagar ingresso. As diferenças acabaram provocando seu desligamento da organização. A FLQ continuou existindo sob outra coordenação.

Elisandro, então, decidiu recomeçar. Criou o Bazar HQ, mantendo a mesma filosofia da antiga feira e preservando a Praça Luiza Távora como seu principal palco. Na prática, explica Mailson, o Bazaar tornou-se uma continuidade daquele primeiro projeto.

“Se juntar a história da FLQ com a do Bazaar HQ, já são mais de dez anos de eventos voltados para a cultura geek acontecendo na praça.”

Mailson, Jéssica e Elisandro
Mailson Brasileiro, Jéssica Miranda ( (Kynn) e Elisandro Pinho

Um espaço público para todos

Ao contrário das grandes convenções realizadas em centros de eventos ou shoppings, o Bazar HQ funciona de maneira simples. Não existem estandes padronizados. Não há cobrança para expor. Também não existe inscrição complexa. Cada participante leva aquilo que possui: uma mesa, um cavalete ou simplesmente uma toalha estendida no chão.

Os lugares não são previamente distribuídos.Com exceção de três espaços reservados aos organizadores que também comercializam produtos — Mailson Brasileiro, Elisandro e Cláudio, da Cláudio Figures — todos os demais são ocupados por ordem de chegada.

“As marcações existem apenas para esses três locais. Fora isso, ninguém tem espaço reservado. Tem gente que costuma ficar sempre no mesmo canto porque chega muito cedo. Mas, se chegar mais tarde, já encontra outra pessoa lá.”

Essa dinâmica reforça um dos princípios da feira: igualdade entre os expositores. Quem chega primeiro escolhe onde ficará. Quem chega depois ocupa os espaços disponíveis.

Apesar da informalidade, o Bazaar HQ possui regras claras. A principal delas diz respeito ao perfil dos produtos. Tudo precisa estar relacionado ao universo geek. É possível encontrar mangás, histórias em quadrinhos, action figures, videogames antigos, consoles, controles, cartas colecionáveis, miniaturas, Funkos, livros de fantasia e ficção científica, acessórios para cosplay, esculturas produzidas em impressão 3D, camisetas de animes, filmes, séries e jogos, além de inúmeros itens de colecionador.

Produtos sem relação com esse universo não são permitidos. Mailson lembra que, certa vez, uma pessoa tentou montar um brechó de roupas comuns. A organização precisou explicar que aquele tipo de comércio não fazia parte da proposta da feira. Alimentos também não podem ser comercializados no espaço.

Mais do que uma feira

O Bazar HQ realiza normalmente uma edição por mês, quase sempre no segundo domingo. A regra, porém, é flexível. Quando o calendário permite, principalmente durante as férias escolares de julho e dezembro, acontecem duas edições mensais.

Ao longo dos anos, a programação foi além da comercialização de produtos. Já houve sorteios para o público, organizados por integrantes que posteriormente deixaram a equipe. Também foram promovidas campanhas solidárias de arrecadação de brinquedos e alimentos, incluindo ações voltadas às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul e iniciativas realizadas durante o período natalino.

Segundo Mailson, manter atividades paralelas exige uma dedicação difícil para quem também precisa cuidar do próprio estande durante todo o evento.

Mailson Brasileiro

Uma história pessoal

A trajetória de Mailson dentro do Bazaar HQ começou como a de muitos visitantes. No fim de 2022, enfrentando um período de depressão, ele buscava alguma atividade que ajudasse a ocupar a mente. Passou a frequentar a feira. Depois começou a produzir, espontaneamente, pequenos vídeos mostrando o movimento do evento.

Publicava em suas redes sociais e enviava o material para os organizadores. Sem receber nada por isso. Sem fazer parte da equipe. Os vídeos chamaram atenção. Em dezembro daquele ano veio o convite para integrar a organização.

Sua primeira publicação oficial nas redes sociais do Bazar HQ aconteceu no início de janeiro de 2023. Desde então, passou a dividir o tempo entre vender seus produtos, divulgar a feira e ajudar na organização de cada edição.

Um universo inteiro sobre mesas e toalhas

Percorrer o Bazar HQ é como caminhar por décadas da cultura pop reunidas na mesma praça. Em poucos metros, um visitante pode encontrar uma edição rara de histórias em quadrinhos ao lado de um lançamento recém-chegado às lojas. Não existe um catálogo que dê conta de tudo o que aparece a cada edição — justamente porque a feira se reinventa a cada mês, de acordo com o que cada expositor leva.

Nas mesas — ou simplesmente sobre toalhas estendidas no chão — há HQs, mangás, livros, camisetas, bonés e ecobags com estampas inspiradas em animes, filmes, séries e games. Colecionadores garimpam brinquedos promocionais de redes de fast-food, dos mais recentes aos clássicos que marcaram gerações, como os famosos bichinhos da Parmalat. Também aparecem Geloucos, tazos, álbuns de figurinhas, Playmobil, Lego, bonecas, brinquedos antigos e itens que despertam a memória afetiva de diferentes públicos.

O universo dos colecionadores vai além. Há moedas, cédulas, cartões telefônicos, peças de filatelia, discos de vinil, fitas cassete, VHS, DVDs, Blu-rays, CDs, videogames clássicos, consoles portáteis, acessórios, jogos eletrônicos e card games. As action figures dividem espaço com Funkos, enquanto impressoras 3D dão forma a personagens de filmes, quadrinhos e games produzidos artesanalmente por artistas locais.

“Você encontra de tudo. Desde um Fofão, uma boneca da Xuxa ou um brinquedo antigo da infância até um Marvel Legends que acabou de ser lançado ou uma HQ recém-publicada”.

É justamente essa mistura improvável entre nostalgia e novidade que faz do Bazaar HQ mais do que uma feira de compra e venda. A cada edição, a Praça Luiza Távora se transforma em um grande ponto de encontro onde diferentes gerações compartilham lembranças, descobrem novos interesses e comprovam que o universo geek não cabe apenas nas telas ou nas prateleiras das lojas — ele também ocupa, uma vez por mês, o espaço público da cidade.

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