Sapatão periférica em liquidação: Wendy Mesquita prepara seu corpo-manifesto para a feira

A feira da Grande Lisboa, no Grande Bom Jardim, ainda é apenas ruído de rotina: cheiro de peixe fresco, pilhas de frutas, feirantes oferecendo mercadorias a preços de ocasião. Mas, no dia 29 de agosto, ela deve se transformar em palco. Entre barracas de farinha, sacolas cheias e vozes que se cruzam em disputa de atenção, a artista visual, figurinista e sapatão periférica Wendy Mesquita planeja erguer seu corpo como megafone.

Sua estreia como performer vem com título que já soa como provocação: “Liquidação da Criação da Sapatão Periférica”. Vestida de uniforme de trabalho, ela pretende anunciar ofertas improváveis: “Liquida tudo! Noventa e nove centavos! Três sorrisos e leve o cansaço de brinde”. Nada estará realmente à venda. A ação, diz, é “um manifesto político, não político de politicagem. Político de corpo”.

A feira como território

O espaço escolhido não é casual. Para Wendy, a feira é o território onde muitas sapatonas resistem diariamente, invisíveis à mídia e aos discursos institucionais. “Ali estão mulheres lésbicas da periferia vendendo produtos, consertando pneus, engraxando sapatos. É uma cena que mostra nossa força, mas também a precarização do nosso trabalho”, explica.

Colocar a performance no meio da feira é tensionar a lógica da visibilidade. Enquanto a sigla LGBT ganha hashtags e campanhas digitais, a visibilidade lésbica, tantas vezes, permanece esquecida.

“Quero deslocar a celebração da internet para a rua, para o território. É aqui que a gente precisa existir com força e resistência”

Wendy Mesquita
Wendy Mesquita

O preço simbólico da criação

Na ação, panfletos e adesivos custarão R$ 0,99. O valor é simbólico, crítica direta à desvalorização da arte, especialmente quando criada por uma sapatão periférica. “O intuito não é vender nada, é fazer enxame. É manifestar”, afirma.

A liquidação, nesse caso, não é desistência. É denúncia. Uma sátira ao modo como o mercado – e a sociedade – insiste em reduzir a potência criativa lésbica e periférica a algo sem valor. “Minha performance simboliza essa contradição: toda a criação sendo oferecida a centavos”, resume.

Grito e convocatória

O mês da visibilidade lésbica costuma passar despercebido. Wendy sabe disso, e por isso escolheu o dia 29 como marco. Mais do que uma apresentação artística, ela enxerga a performance como convocatória coletiva. “Estamos juntas. É o momento de gritar, de dar protagonismo às sapatonas da periferia que estão tentando existir com seus corpos de toda forma. É difícil. Então é isso: um grito manifesto.”

Quando o dia chegar, a feira talvez não esteja preparada para o corte que a performance trará. Mas Wendy já está: corpo armado em gesto, voz preparada para o grito, criação oferecida em liquidação.

Porque, no fim, nada estará realmente à venda. O que se coloca em cena é a afirmação de uma existência. E essa, por mais que o sistema insista, não tem preço.

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